Muitos dos traços psíquicos da sua personalidade, encontrados na sua obra, reflectem bem características de perfil ambiental. Na veracidade do seu trabalho e na integridade do seu ser reconhece-se os alicerces graníticos sobre os quais assentou a maior parte da sua vida. As condições climáticas e topográficas da sua cidade austera e brumosa, por vezes como que diluída em neblinas transparentes e esbranquiçadas, condiziam com a sua aguda sensibilidade, com o seu misticismo e com os estilos a que aderiu, sobretudo o impressionista.
Profundo conhecedor das bases de formação clássica, tendo por fonte inesgotável de saber J. S. Bach e uma grande predilecção pelo polifonismo a-cappella, (é importante lembrar que divulgou os polifonistas portugueses, quando ainda esquecidos, e que produziu uma vasta obra coral só para vozes!) Cláudio Carneyro adquiriu uma estética moderna muito pessoal. Sem abandonar a tradicional tonalidade, embora com escapadas para experiências de atonalismo livre e de dodecafonismo, a sua música serve-se de cromatismos, sucessões de tons inteiros e motivos de carácter modal.
É incontestável a relevância que a sua obra da Canção Culta de Câmara assume na História da Música Portuguesa, cabendo-lhe representar a transição do romantismo para a música moderna, situando-se sobretudo no impressionismo, no simbolismo e no expressionismo, com páginas de fino requinte que evocam miniaturas intímistas. Cláudio Carneyro foi mestre na sintetização de urdidura musical ao interpretar um poema e também no tratamento da prosódia. A escolha de poesia medieval denuncia o seu gosto pelo arcaico.
O interesse pela música portuguesa manifesta-se fortemente, já pela sua pesquisa folclórica, já pelas suas harmonizações de melodias do povo e inserção de temas populares em variadas obras do seu legado musical que abrange todos os géneros, menos o da ópera e o da oratória, e em que se salienta a música de câmara, de piano, de bailado e sinfónica.
Rodeado por uma família de artistas (seu pai e irmão foram os pintores António e Carlos Carneiro e a sua mulher a violinista americana Katherine Hickel Carneiro, promotora tenaz do seu espólio,) começou a estudar violino aos quinze anos, tendo sido decisivo para enveredar apenas pela composição, o sucesso obtido em Paris pelo seu Prelúdio, Coral e Fuga que Gabriel Pierné dirigiu (1920 e 25). No Porto trabalhou composição com Lucien Lambert e em França com Charles Widor e Paul Dukas. Foi professor de solfejo e de composição no Conservatório de Música do Porto, de que foi director (1955/1958).
'Cláudio Compositor' - António Carneiro (1918)
- Cláudio Carneyro 'Songs' (Strauss, 1995)
- Elvira Archer - Soprano;
- Nella Maissa - Piano.
(mp3 - 256 kbps)
Gravação: Estúdio JORSOM, 6, 7, 8 e 9 de Outubro de 1987.
Retrato de Cláudio Carneiro, s.d (1927)
Lista Essencial das obras de Cláudio Carneiro:
- MÚSICA DRAMÁTICA - Auto da Cidade.
- BAILADO - Nau Catrineta, O Douro correu para o Mar.
- MÚSICA ORQUESTRAL - Portugalesas, Baíadeiras, Cantarejo e Dânçara.
- MÚSICA DE CÂMARA - Trio com piano, Sonata para violino e piano, Bruma (violino e piano), A roda dos degredados (violino e piano), Quarteto co piano, Quarteto de cordas, Khroma (violeta e piano), Sonatina (violoncelo e piano), Memento (orquestra de arcos), Prelúdio Coral e Fuga (orquestra de arcos), etc.
- MÚSICA DE PIANO - Carrilhões de bronze, Carrilhões de prata, Harpa Eólia, Movimento perpétuo parana, etc.
- MÚSICA VOCAL - Cantares, Velhos cantares, Canções Populares Portuguesas, Quatrain Epitaphyo, canções com textos de: Júlio Diniz, Antero de Quental, Eugénio de Castro, Guerra Junqueiro, Rodrigues Lobo, etc.


